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O tempo não lhe pertence.

Faz tempo que ocupo tempo em minha mente com o assunto tempo.

Como lido com o meu, com o do outro, como o outro lida com seu próprio, e por aí caminham minhas conversas e reflexões.

Haverá algum ser humano que não se preocupe com o tempo?

Certamente, nos primórdios da vida humana, a relação homem e tempo era mais simples e tranquila. O tempo provavelmente fluía sem quase ser percebido, tamanho o equilíbrio natural entre necessidades humanas e o passar do dia e da noite.

Roman Krznaric, em seu livro sobre a Arte de Viver, lembra que nem sempre lidamos com o tempo da maneira como o tratamos hoje. Foi entre os séculos XVIII e XIX que o tempo passou a ser considerado como uma mercadoria cambiável. “As pessoas passaram a falar de duração de tempo como se falassem de comprimentos de tecido. Agora o tempo era algo que podia ser poupado e gasto como dinheiro. ”

Esta visão está tão enraizada em nossa sociedade que confesso ter me assustado ao refletir que algum dia o tempo foi encarado de maneira diferente. Quase impensável…

“Viver em tempo emprestado”, “Tempo é dinheiro”, “Dar um mínimo de seu tempo”, “Fazer o tempo render”, “Poupar tempo”, “Matar o tempo” são frases do cotidiano que Krznaric relembra. E eu incluiria “Administrar o tempo”.

Mais do que uma mercadoria cambiável, creio que ele tenha se tornado uma “criatura paradoxal”, ora perseguido como um cavalo indomável que se pretende laçar, ora desejado como um néctar raro, para ser sorvido aos poucos. Complexo….

Nossa relação com o tempo se tornou tão intrínseca que chegamos ao absurdo de nos iludir que estar sempre ocupado pressupõe que o tempo está sendo bem usado ou que isto nos confere importância como pessoas e profissionais. E na face oposta, ter tempo livre a disposição nos coloca como alvo de julgamentos depreciativos, os próprios, inclusive.

Como resolver estas equações?

Parece-me muito utópico imaginar que na sociedade capitalista e em fase de vida profissional ativa consigamos ignorar a necessidade de administrar o tempo.

Com modéstia, submeto-me a esta conotação cambiável e me inspiro em algo que Mário Sérgio Cortella, filósofo, sempre lembra quando o assunto é este: qual é a sua prioridade? Há muitas atitudes que podemos adotar para gerir nosso tempo e não faltam especialistas, métodos, aplicativos etc. para nos apoiarem nesse percurso, contudo, acredito que definir quais são as nossas prioridades seja o ponto de partida e de caráter inegociável. Isto é o que passou a definir como tenho procurado me relacionar com o tempo que tenho sob meu domínio, escolhendo como “poupá-lo” ou gastá-lo. E esta é uma questão que precisa ser renovada frequentemente, pois mudam os contextos, mudam as necessidades, consequentemente mudam as prioridades.

Daí a importância do autoconhecimento, da consciência de nossos valores, do que desejamos para nossa vida, para que deem contorno à elasticidade com que respondemos a essas mudanças.

Perdi a ilusão de que podemos ser donos de “nosso” tempo, já que concluí que ele não nos pertence, apenas está a nossa disposição. O imponderável impede essa apropriação, assim como frustra o desejo de posse plena sobre o curso de nossa vida. Penso que em ambos os casos nos cabe assumir a responsabilidade pela porção que nos é possível gerir. A princípio um fardo, pois exige dizer não para uma porção de coisas e pessoas ao nosso redor. Lentamente, porém, os efeitos deste compromisso se evidenciam: maior satisfação com o ritmo de vida, mais produtividade, mais tempo para o que realmente importa e consequentemente uma elevação do nível de satisfação pessoal. Oxalá um sentimento de “ter feito as pazes com o tempo”.

Pense a respeito. Ou você prefere continuar dizendo que “não tem tempo”?

 

Márcia Fonseca

Psicóloga, Coach, Consultora e Docente na área de Gestão de Pessoas, atuando no segmento de serviços de saúde há mais de 20 anos.

www.paraevoluir.com.br

 

 

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