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Entrevista Mario Sergio Cortella – Relações de Poder

MINI CURRÍCULO

Filósofo e escritor, com Mestrado e Doutorado em Educação pela PUC/SP. Atuou por 35 anos como Professor Titular da PUC/SP, com docência e pesquisa na Pós-Graduação. É Professor convidado da Fundação Dom Cabral e ensinou no GVPEC da FGV. Foi Secretário Municipal de Educação de São Paulo. É autor de vários livros, entre eles:
A Escola e o Conhecimento – Editora Cortez
Nos Labirintos da Moral, com Yves de La Taille – Editora Papirus
Não Espere Pelo Epitáfio: Provocações Filosóficas – Editora Vozes
Não Nascemos Prontos! – Editora Vozes
Sobre a Esperança: Diálogo, com Frei Beto – Editora Papirus
O que é a Pergunta, com Silmara Casadei – Editora Cortez
Liderança em Foco, com Eugênio Mussak – Editora Papirus
Filosofia e Ensino Médio: certas razões, alguns senões, uma proposta – Editora Vozes
Viver em Paz para Morrer em Paz: Paixão, Sentimento e Felicidade – Editora Versar/Saraiva
Política para Não Ser Idiota , com Renato Janine Ribeiro – Editora Papirus
Vida e Carreira: um equilíbrio possível?, com Pedro Mandelli – Editora Papirus
Educação e Esperança: sete reflexões breves para recusar o biocídio – Editora PoliSaber
Qual é a Tua Obra? Inquietações Propositivas sobre Gestão, Liderança e Ética – Editora Vozes

Questão de Coaching: Qual a sua definição para Poder (autoridade/ambição/influencia)?
Professor Cortella: A noção de poder na origem é aquilo que tem uma capacidade de produzir uma ação ou de impedi-la. Então a própria noção de poder tem embutida aquilo que oferece uma possibilidade de fazer com que algo aconteça ou impedir que algo aconteça. Isso do ponto de vista etnológico é a própria percepção. Em latim é a ideia de potesta (latim) , é aquela que favorece ou dificulta. Por isso a noção de poder esta ligada ao que faz com que se faça ou impede que seja feito, ou seja, o exercício de uma força que impulsiona ou trava. Essa é a definição clássica de poder.

Questão de Coaching: E dentro da empresa, você vê alguma diferença na definição de poder?
Professor Cortella: Não, ao contrário, porque aquele que tem uma autoridade, que tem o exercício da força e do poder de mando, vai incentivar a ação ou impedi-la. Pode apresentar sim, uma diferença em relação a qual é a fonte do poder que ele carrega, ele pode ter um- poder que venha somente da hierarquia ou pode ter um- poder que venha da admiração, da liderança ou da capacidade de expressar sua competência. Algumas pessoas que têm poder baseado apenas na hierarquia, só conseguem exercer o poder acumulando (mais poder TIRAR), na medida em que a fonte não é o respeito, mas é o temor ou a obediência. Muitas vezes uma obediência que é cínica, é cumprida apenas porque manda quem pode e obedece quem tem juízo. Não algo que, tirada essa pessoa da hierarquia, alguém continuaria a obedecer.

Questão de Coaching: Como o poder se manifesta nos diversos níveis da organização?
Professor Cortella: Claro que se você imaginar o que é uma hierarquia – a expressão hieros em grego significa saber sagrado, no sentido de origem, princípio. Portanto a noção de poder na historia, tem como fonte a ideia divina – a hierarquia é aquela que estrutura na concepção de mando e de obediência, que tem como base o pressuposto de que aquilo é imutável porque é sagrado. Por isso algumas organizações fixam a sua estrutura de mando só na hierarquia. Nesse sentido, o chefe é intocável, inquestionável, alguém que chega próximo ao dogmático. Essas organizações que são bastante arcaicas estão envelhecendo, mas ainda mantêm esse tipo de estrutura, só que tem cada dia menos lealdade, menos retenção e menos admiração, seja para aquele que nela trabalha seja para aquele que com ela se relaciona. Um líder que não seja um mero chefe tem um poder advindo da competência, da admiração, do respeito.

Questão de Coaching: E como o poder se manifesta na base da pirâmide?
Professor Cortella: Ainda assim você tem algumas formas de expressão do poder que vêm em função:
Da experiência,
Do respeito pela idade
Do tempo de casa
Pela própria personalidade do funcionário.
Portanto, mesmo que o cargo não exista como diferenciação, as relações de poder se dão em qualquer grupo social, até dentro de um ônibus onde ninguém se conhece – a maneira como a pessoa se veste, seu porte, seu modo de se comportar e se colocar, tudo isso acaba lhe concedendo maior ou menor grau de poder.

Questão de Coaching: Você visualiza alguma mudança na relação com o poder em função da chegada da Geração Y aos cargos de liderança?
Professor Cortella: Sim, Pedro Mandelli e eu escrevemos um livro, no final do ano de 2011 chamado Vida e Carreira e um dos tópicos abordados é justamente sobre as novas gerações. O Pedro Mandelli diz no livro que as novas gerações estão chegando às organizações, mal educadas, porque elas convivem pouco com adultos, que com eles deveriam se relacionar como autoridade. Nos últimos 30 anos, nas grandes cidades onde se concentra boa parte da população no Ocidente, houve um afastamento entre pais e filhos em função da necessidade de jornadas de trabalho mais extensas. Isso fez com que uma parcela dos jovens tivesse um nível de soberania, em que eles passaram a confundir desejos com direitos. Em função disso , o jovem chega à organização sem noção de hierarquia e sem paciência e sem espírito de equipe, então as empresas têm que assumir um papel de educadora – os Ys precisam aprender a trabalhar em equipe, a ter senso de responsabilidade, para eles não suporem que os seus desejos se tornem direitos. As organizações mais inteligentes estão levando isso em conta, ou seja, os jovens são assim o que não significa que as empresas têm que se curvar a isso, mas têm que levar em conta – educá-los e perceber que eles são decisivos para o processo de desenvolvimento da organização. Os jovens têm uma competência poderosa, que é trabalhar com as plataformas digitais, onde a instantaneidade, velocidade, simultaneidade e a mobilidade são decisivas, portanto ele é alguém que chega com senso de urgência, mas que não tem paciência para pensamento estratégico. A empresa inteligente é a que junta os migrantes digitais com os nativos digitais. E ao fazê-lo entende que há muita coisa a ser aprendida com as gerações Y e Z, mas também existem coisas que essas gerações precisam corrigir. Essas gerações passaram também por um afastamento dos avós que exerciam uma linha de comando sem violência – na casa da avó pode tudo menos o que ela proibir. O carinho e o afeto ditavam um comando mais flexível. Essa flexibilização era aprendida por nós no dia-a-dia e esse afastamento faz com que o jovem conviva muito mais com os pares. A omissão dos pais é uma forma de poder, mas que fragiliza a disciplina. Uma coisa que as novas gerações entendem bem são os direitos de liberdade, a importância da autonomia, mas não se deve confundir autonomia com soberania. Autônomo é aquele que faz o que pode no âmbito da sua responsabilidade. Soberano é aquele que faz o que quiser independente dos outros existirem. Algumas famílias criaram, nos últimos tempos déspotas, terroristas, que agem como soberanos. Isso tem um impacto, quando chega à escola, que é o primeiro lugar onde eles passam a conviver fora de casa. Em que a relação docente e discente passou a ser o código do consumidor. O menino de classe media aponta o dedo no nariz do professor e diz que paga o salário dele. Portanto isto estilhaça outras formas de relacionamento. Assim como ele se relaciona com sua empregada domestica e um garçom, isto é, alguém que o serve. Esta visão, do outro como serviçal, é muito marcante.

Questão de Coaching: Como você acha que os Ys agem quando assumem uma posição de poder formal dentro das organizações?
Professor Cortella: De maneira geral eles são muito mais pragmáticos e despóticos. A expressão é: “Quero tudo, já, agora, ao mesmo tempo, junto”. Algumas empresas se valem desta condição para obter resultados imediatos o que é um equívoco porque o resultado imediato serve apenas para fluxo de caixa, não serve para perenidade. A vida, assim como o negócio é uma maratona , não é uma corrida de 100 metros rasos com barreiras. Se você observar, um atleta de alta performance para os 100 metros rasos, quando acabam os 100 metros, ele quase desmaia. Já um maratonista precisa lidar com a capacidade dele de trabalhar o ritmo, de olhar um pouco o processo, de enxergar a diante e não apenas o imediato. Uma parte das organizações deseja um velocista que dispara e chega num ponto e usa os jovens para isso.

Questão de Coaching: No sentido de liderança, a geração Y tem um foco maior no resultado do que em pessoas?
Professor Cortella: Sim, eles têm foco nos resultados, no imediato. O jovem precisa ser formado desde já. É uma responsabilidade da organização. Um dos investimentos fortes da área de RH é fazer com que o jovem não perca sua profunda habilidade em relação aos resultados mas acople a capacidade de convivência, de respeito mutuo, de objetivos compartilhados e portanto eleve a condição de trabalho e retire um pouco da marca individualista e consumista que foi instalada. Quando você compra para um menino de 12 anos um tênis que custa dois pneus de um carro, você está passando para ele uma ideia de valor do dinheiro, da vida e do trabalho. Você está ensinando para ele algo. É preciso deseducá-los para algumas coisas e é preciso também nos deseducar em relação ao modo como os mal-educamos. Nós também temos que nos educar em relação à tecnologia. A relação com a tecnologia não deve ser de formatofobia nem de formatolatria. Pessoas dizem assim em debates na escola: “professor meu filho passa 14h por dia no computador” então ele deve ser tratado porque ele tem uma obsessão. E toda obsessão é doentia. Se ele passar 14h estudando filosofia ele também tem uma obsessão e precisa ser tratado. O problema não é o que ele está fazendo mas, como ele está fazendo que é de uma maneira desmesurada, hiperbólica. Eu não conheço uma criança que só consegue existir se ficar “plugada” , se ela tiver algo mais interessante para fazer, ela vai lá e faz. Sempre dou um exemplo: Se você tem uma criança de 7 anos que está sempre plugada, leve-a para a praia e dê um balde e uma pá para ver o que acontece. A questão é o foco de interesse. E muita gente foca a tecnologia como se ela fosse adversária. Ela tem uma natureza instrumental. Nem sempre as pessoas vão a restaurantes porque eles anunciam que têm os melhores micro-ondas. Se eles anunciarem que têm fogão a lenha, pode ser que as pessoas se interessem. Alguns diferenciais na vida vêm justamente pela ausência. Essa transformação de átomos em bites não vale para tudo, o tempo todo.

Questão de Coaching: Existem tipos diferentes de poder dentro das empresas?
Professor Cortella: Você tem diferentes formas de ação do poder. O poder emana de várias fontes. Vai desde o poder legítimo que é o que emana da autoridade competente , como aquele que emana apenas da hierarquia. Vou te dar um exemplo simples: em uma reunião em que participam 8 gerentes no mesmo patamar hierárquico e um deles é uma mulher, é comum que ela seja solicitada a secretariar a reunião. Alguém da área de filosofia como eu numa organização é entendido como sendo alguém que serviria para alguns delírios e não para execução. O sujeito usa argumentos de autoridade em alguns debates. Ele diz assim: “mas eu sou engenheiro!” Como se o fato de ser engenheiro bastasse para garantir a realização das coisas concretas e práticas. Então este tipo de poder não esta escrito nem ele é de natureza funcional, mas ele opera. Existe o poder intra texto o tempo todo, na linguagem que se usa, na forma como você se veste. Várias organizações aboliram o cargo do crachá de maneira a horizontalizar um pouco mais o relacionamento. A intenção é positiva mas nem sempre se consegue isto porque a sala, o local do estacionamento, a roupa que se usa, isto tudo dá uma dimensão diferenciada. Então o poder não está presente somente na organização, ele está presente no conjunto da vida coletiva. Como diz John Done no poema “Nenhum homem é uma ilha” que a psicologia usou durante anos para estudar Melanie Klein. Ali ele lembra algo que é necessário. Quando você está sozinho você estabelece relações de poder. Seja com seu id, seja com sua capacidade. Como nenhum homem é uma ilha de fato, esta relação de poder aparece quando você está sozinho. Na historia de Robson Cruzoé onde ele está perdido, ele estabelece uma relação com o Sexta-feira, o servo dele. No filme O Naufrago, o Tom Hanks atribui uma relação hierárquica com a bola. Ele a chama de senhor. O poder é tão forte, de afeto, que quando ele a perde é uma das cenas mais emocionantes do filme.

Questão de Coaching: Como o poder pode influenciar no surgimento de conflitos no trabalho?
Professor Cortella: O conflito é sempre positivo e o confronto é negativo. O conflito é aquilo que faz criar, aparecer, crescer. O conflito é aquilo que passa do obvio, é aquilo que mexe, é aquilo que tem emoção, emovere (latim), aquele que movimenta. O conflito faz surgir o novo, ele faz aumentar o repertório de alternativas. O confronto é a tentativa de anular a outra pessoa. Por ex. Eu gosto muito de jogar peteca porque o que vale é manter a bola no ar. Eu não gosto de jogos com confronto como tênis em que você se especializa em prejudicar o outro ao máximo. A tua competência num saque vem de fazer o outro errar. Uma guerra é um confronto. A tentativa é anular o outro. Uma discussão, um debate, é um conflito.
Questão de Coaching: Como desenvolver o empowerment x hierarquia do poder dentro das organizações?
Professor Cortella: A hierarquia do poder não é negativa, então quando você coloca o “versus”, dá a impressão de que é algo a ser enfrentado. A hierarquia é uma coisa necessária para a organização. Burocracia não é ruim. Burocratismo é que é ruim. A hierarquia é uma maneira de você organizar. Por exemplo, numa sala de aula , existe uma hierarquia entre o docente e o discente e significa que nós temos funções distintas. Eu tenho responsabilidade que é diferente de um discente. Não significa que eu vou mandar nele para usá-lo, humilhá-lo, para oprimi-lo. Ele não é minha propriedade, não vou objetiva-lo, mas existe uma hierarquia e por isso, na relação com ela tem que haver flexibilidade para que o mando não seja desmando. Para que o uso não seja abuso, e nesse sentido, uma empresa, uma organização, tem que ter mecanismos de participação que criem retaguarda em relação aos desmandos. Não existe democracia em empresa. Isso é uma conversa mole. Democracia existe em sociedade de iguais, onde haja isonomia. Empresa tem proprietário, tem acionista, tem chefia fechada. Às vezes se fala que tem que aumentar o nível de democracia nas relações. Isso não tem sentido quando se fala do setor produtivo privado, tem sentido quando se fala de uma organização política, uma cidade, uma sociedade, uma nação…isso ,sem dúvida. Agora, o que se deve fazer numa empresa, é que o poder seja participativo, não democrático. É um uso inadequado da expressão democracia. Como poder participativo nessa relação, a hierarquia precisa ser mais horizontalizada porque ao se horizontalizar ela cria instâncias menos desnecessárias de uma nação de poder e portanto, ela flui com mais tranquilidade, que é o mando dentro da organização. Comunicação e reciprocidade são elementos decisivos. Ninguém deixa de obedecer a uma ordem apenas porque ela é uma ordem. Normalmente as pessoas o fazem, isto é, desobedecem quando não entendem a razão daquilo ou não querem, após ter entendido fazer, mas é preciso que ela, antes de mais nada, entenda. O fluxo de comunicação dentro de uma organização é decisivo. A hierarquia só não é agressiva quando o fluxo de comunicação não vai sofrendo interrupções, do contrário, a gente tem um AVC (acidente vascular cerebral).

Questão de Coaching: É possível uma pessoa aprender a lidar com o poder, tanto o que exercem sobre ele como o que ela exerce sobre os outros?
Professor Cortella: Não só é possível como é necessário. Hoje você tem várias formas de formação continuada, de treinamentos, várias formas de Coaching, que levam a pessoa a ter capacidade tanto de chefiar quanto ser chefiada, para que ela perceba :
1- Que há limite em relação aos dois modos de operação;
2- Que todo poder é transitório em relação a determinado tipo de afetividade e efetividade;
3- Que se consegue muito mais resultado quando, aquele sobre o qual se exerce alguma pressão ou mando, compreende o sentido que se faz.
Nesta hora, a capacidade de comunicação é um dos polos de formação daquele que exerce o mando e daquele que é mandado, no seu âmbito de obediência, quando ele também tem claros os objetivos daquilo que está sendo feito. Quase sempre a organização que não forma as pessoas nessa direção, obtém níveis muito fortes de stress. Há uma diferença entre cansaço e stress. O stress resulta de um esforço que você não entende a razão de estar fazendo. O cansaço resulta de um esforço intenso. Jogar uma hora de futebol cansa mas não estressa, dançar a noite toda cansa mas não estressa, trabalhar 14 horas cansa mas não estressa, a menos que você não entenda por que está fazendo aquilo ou não queira fazer. O cansaço você cura descansando. O stress você cura mudando de objetivo.
Questão de Coaching: Qual o grau que você acredita que uma pessoa pode aturar esse poder , caso ela ache que é uma coisa que está sendo prejudicial a ela?
Professor Cortella: Não existe uma métrica para isso. Dependerá muito de cada personalidade e como a própria palavra diz, é uma persona, um indivíduo. Não há uma métrica. Há um aprendizado, assim como existem os Alcoólicos Anônimos, existe também uma série de associações que lidam com isso. Nos Estados Unidos, na América do Norte, isso inclusive, é uma medida judicial. Existem grupos que você é obrigado a frequentar em relação a delitos de trânsito ou na convivência do trabalho, em relação a algum tipo de assédio moral, em que , afora as providências da empresa, possivelmente a justiça condena a frequentar sessões para irritadiços ou pessoas que não tenham capacidade de convivência. Eu, como sou da área de educação, acredito que as pessoas sempre têm salvação. Eu sempre acho que é possível algum movimento que retire aquilo que leve ao sofrimento, aquilo que leve à dificuldade. Existe uma relação complementar entre o que exerce o poder de uma maneira autoritária e o outro que é o submisso e que de repente, se prejudica mais que os outros. Hegel, filósofo alemão do séc.XIX, chamava isso de “dialética ao senhor escravo”. Existe um movimento em contradição, e até de identidade, em relação ao senhor escravo. O escravo sofria e o senhor sofria por ser o escravizador. É claro que os sofrimentos eram diferentes, mas ambos eram vítimas do mesmo movimento, que é a capacidade de desumanização. Aquele que desumaniza também é desumanizado pela própria desumanização que ele pratica. Portanto, eu vou lançar este ano com a Janete, com quem sou casado, um livro pela Editora Ática,chamado “ Educação e Preconceitos”, e lá se mostra que o preconceito torna ambos vitimas. Agora, existe algo que o filósofo Boeci chamava de servidão voluntária, que são pessoas que justificam e escondem parte de sua inação, parte do seu modo de acomodação dizendo : “eu prefiro obedecer”… De jeito que, ter que coordenar e ordenar, é algo que pesa bastante, pois é necessário assumir a responsabilidade pelo êxito ou pelo fracasso. É claro que nessa hora, voltando à questão de partida, aquele ou aquela que tem, nessa relação de poder, algo de aceitação, também está adoentado, ele também está decidindo trabalhar de forma robótica, automática e , portanto, está numa zona de conforto que é extremamente perigosa, e no campo da empregabilidade, mais ainda. Agora, nem sempre o déspota é esclarecido, portanto, o mando dentro de uma empresa, pode ter atividade despótica em que o déspota nem percebe. Ele acha que é assim, isto é, sempre foi assim. Que é a nostalgia do feitor, é a ideia do capataz, que é muito usual numa sociedade que só completou 100 anos. O ano passado fez 100 anos da ordem de Taylor. Então, um século da discussão Taylorista, e ele ainda é recente no modo de produção industrial mais contemporâneo em que a ideia do capataz, não ultrapassou uma sociedade que é escravocrata na origem. Isso a geração Y vem tentando , no dia a dia, porque como foi formada num ambiente não marcado por essa direção, isso dá outra visão. Por exemplo, isso é mais fácil nas sociedades orientais, asiáticas especialmente, onde a noção de hierarquia é fechada, como no caso da China, Japão e Coréia. Porque isso vem da família. Numa sociedade, por exemplo, você tem algumas regiões tradicionais. No Japão, eu sei, porque estive lá em atividades em 1984, em que a nora não come à mesa junto com a sogra, e ela só assume o seu lugar quando a sogra morre… Claro que isso não é no conjunto da sociedade, mas as sociedades ocidentais, têm uma noção de hierarquia diversa. Por isso é que a China obtém um sucesso muito forte no momento em que uma parcela do mundo do trabalho ocidental introduz discussão sobre a qualidade de vida, humanização do trabalho, espiritualidade. Por isso é que o nível da produção recuou em parte da produtividade ocidental e aumentou nos países asiáticos, no caso, especialmente da China e Índia. Não é a toa que um dos grandes empresários chineses disse esses dias, que o brasileiro é um pouco folgado. É preciso lembrar que Confúcio, que é um gênio do pensamento, trabalha a principal noção que é a hierarquia. A influência oriental é tão grande que aqueles que têm saudade disso, o livro que mais leem é a Arte da Guerra. E agora entrou em moda nas empresas trabalhar com “Tropa de Elite”. Todo evento que você vai tem uma discussão, tem a questão, tem as pessoas se vestindo, os nossos homens, os nossos combatentes, “pede pra sair”. Isso cria um ambiente absolutamente instável interno porque ele se assemelha a um confronto.

Questão de Coaching: Qual o limite do poder para que não seja transformado em assedio?
Professor Cortella: O assédio, sendo entendido como moral ou sexual, é uma forma de exorbitância do poder. Aliás, ele tem como salvaguarda, para quem assedia, exatamente o poder que ele detém. E nisso é preciso que se criem várias formas de combate no cotidiano: mecanismos de denúncia e transparência. Usando uma antiga frase, “o sol é o melhor detergente”. Quando você tem esse tipo de sujeira, você tem que começar a dar clareza, de maneira que ela seja exemplar. A prática do assédio entra diretamente nesse campo como sendo o poder que transborda para o negativo, a pessoa se vale do poder. Então é alguém que não tem o poder que serve, mas é um poder do qual ele se serve. E isso sem dúvida retoma posições escravocratas em relação ao trabalho do dia a dia.

Questão de Coaching: Por que o poder corrompe?
Professor Cortella: O poder é sempre passível de corrupção. Há um nível de corrupção possível para qualquer um de nós. Há uma frase antiga que diz “cada homem tem seu preço” e é verdade. A grande discussão é como eu chego lá, ou não. Então essa é a discussão. É preciso que se tenham valores que sejam mais sólidos para saber que a corrupção é uma possibilidade. Ela não é uma obrigatoriedade, mas ela é uma possibilidade. E se ela é uma possibilidade, ela nunca será extinta. A corrupção só seria extinta se nós extinguíssemos a liberdade. Eu fui Secretário da Educação da cidade de São Paulo e eu tinha ascensão sobre 65 mil pessoas, que eram os funcionários. Manejava um orçamento de 5 bilhões de reais, ou seja, as ocasiões elas são contínuas. Aí é uma questão de princípios, de valores, e ao mesmo tempo de saber qual é o preço que se paga e o preço que se aceita. O Barão de Itararé dizia que um homem que se vende sempre vale menos do que pagam por ele. Mas algumas pessoas continuam se vendendo, mas não se vendem só por dinheiro. Muita gente se vende por um elogio, por uma adulação, por cargo, por um nome na porta. Aquela forma tola, aquela forma banal de vaidade. A vaidade ela é uma das formas mais fortes de ignorância.

Questão de Coaching: Qual a relação do poder com a moral?
Professor Cortella: Não tem como retirar a ética, ela é o modo como nós estruturamos nossa forma de relacionamento com o poder. O poder está o tempo todo, em todos os momentos, e a ética é aquilo que “concerta”, faz o concerto dessas condições. Portanto a ética e a moral, estão dentro do nível do poder. Porque a ética tem a ver com liberdade e poder também.

Questão de Coaching: As declarações de missão, visão e valores das empresas são formas de conduzir a conduta das pessoas em relação ao poder?
Professor Cortella: Claro! Elas têm ali qual é o horizonte, e é preciso fazê-lo! Uma pessoa pode concordar ou não com aquilo, se não concorda, não fica. Se precisar ficar porque é obrigada a ficar pela sobrevivência, então ela não está aderindo. Ela está apenas por ser conveniente. Mas visão, missão e valores precisam ser colocados. Alguns anos não se fazia isso porque não havia necessidade de convencer as pessoas, bastava vencê-las com o poder. Quando você precisa convencer, aí você tem que deixar claro qual é a missão, quais são os valores, qual é o horizonte.

Questão de Coaching: Quais são as possibilidades que o senhor visualiza para trabalhar com o poder para que ele seja bem utilizado dentro das empresas?
Professor Cortella: É preciso formar os líderes e os liderados. É preciso fazer com que chefias sejam preparadas para serem lideranças, portanto, que elas tenham algumas habilidades. Algumas delas são muito diretas, isto é, uma mente mais aberta em relação àquilo que não é idêntico ao modo como penso e sou; a capacidade de perceber o quanto o trabalho em equipe é cada vez mais decisivo, e que, portanto a noção de competência mudou, a noção é mais coletiva, não é no indivíduo apenas, é o indivíduo em um grupo; em terceiro lugar a percepção de que é preciso inovar a obra que se faz à medida que é feita, se ela não for renovada, ela fica extremamente redundante, tautológica, e isso leva a um retrocesso. Por outro lado, ser capaz de oferecer espaço para a alegria dentro do local de trabalho, seriedade não é sinônimo de tristeza, o contrário de seriedade não é alegria, o contrário de seriedade é descompromisso e, portanto, aqueles que fazem com que exista maior respeito porque fecham a cara, estão sendo é, apenas e tão somente, mal humorados e rabugentos. Ele não está sendo sério. A alegria tem que ter espaço, as pessoas têm mais vitalidade quando elas têm alegria. E por fim, que ele se prepare para pensar além do agora, isto é, que tenha pensamento estratégico. O Coaching ajuda a fazer isso, as formações continuadas, alguns dos programas de pós-graduação no nível das camadas executivas também funcionam, algumas literaturas acabam oferecendo a possibilidade de reflexão. Não há uma única fonte, esse conjunto de direções é que acaba permitindo que alguém entenda o poder como sendo um serviço. O Eugênio Mussak e eu temos um livro que trata disso que você está falando, chama-se Liderança em Foco. E lá tem uma parte inteira sobre o poder, em que essa sua questão é tratada exatamente com esse foco, quer dizer, digo eu por exemplo, retomo, a finalidade do poder é servir. Todo poder que ao invés de servir é um poder que se serve, esse é um poder que não serve! Certo? Servir a uma comunidade, servir a um grupo, servir a uma estrutura. Repito: todo poder que ao invés de servir a um grupo serve a si mesmo, esse poder não serve. Porque poder é serviço, quando ele não é, ele é malévolo, ele é deletério, ele é algo que faz mal.

Questão de Coaching: Qual seria uma frase ou mensagem que o senhor gostaria de deixar para os leitores do blog?
Professor Cortella: Eu acho que a expressão mais forte é aquela que o grande Sócrates trazia lá no Século V antes de Cristo, que é uma lição de humildade intelectual: “Só sei que nada sei.” Sócrates não era tolo, quando ele dizia “só sei que nada sei ”, ele não estava fingindo modéstia. O que ele queria dizer era só sei que nada sei por inteiro, só sei que nada sei por completo, só sei que nada sei que só eu saiba. Nesse sentido, só sei que nada sei, é uma demonstração de humildade intelectual. Sempre temos que aprender e Guimarães Rosa dizia isso: “gente não nasce pronta.”

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